20 de dez de 2009

Teppo Jutsu: a secular arte japonesa do manejo da espingarda

Sempre odiei aquele pessoal (a playboyzada é mestra nisso) que faz alguma arte marcial e discute qual é a melhor pra dar porrada. Eu sempre fui adepto da idéia que a melhor arte marcial é a "arte do puxa dedo": não tem mestre de luta que ensina a segurar chumbo. Enquanto eu pesquisava sobre esgrima medieval, descobri uma arte marcial japonesa que supera todas as outras: é a chamada Teppo Jutsu.



Existe uma antiquíssimo manuscrito japonês chamado Teppo-ki, a "crônica da espingarda":

No dia 25 do 8º mês do Outono da era Tembun (ou 23 de Setembro de 1543), ocorreu uma coisa incrível na cidade litorânea de Tanegashima, mais precisamente na praia Nishimura Ko-ura. Um navio estranho, com cerca de 100 tripulantes, vindo de não se sabe aonde aportou. Eram uma cambada de bárbaros, que se vestiam de maneira estranha, falavam de maneira ruidosa e emotiva, que comiam com as mãos e que não compartilhavam a xícara de chá em que bebiam.

Mas dentre estes bárbaros mal-educados estava um cara chamado Goho. Ele não sabia falar japonês, só sabia escrever ideogramas chineses, que são muito semelhantes às tradicionais letras nipônicas. Com uma comunicação mal e porcamente estabelecida, Goho disse quem era aquele povo. Eles eram mercadores oriundos de uma terra bárbara distante e estranha chamada Portugal.

O que encantou a população e principalmente a Tokitaka, senhor feudal da região, não foram seus modos estranhos ou as batatas-doces que eles trouxeram, desconhecidas até então no Japão. Foram as espingardas que eles traziam, que foram batizadas de "teppo".

Tokitawa de cara percebeu o valor daquelas armas. E então ordenou que Kimbei, seu armeiro, que até então nem tinha visto uma espingarda de perto aprendesse a produzi-las. Para isso, Kimbei foi até ao navio português e ofereceu sua única filha, chamada Wakasa (que significa "Juventude"), para o capitão, em troca das técnicas de fundição de espingardas. O negócio foi fechado, Wakasa foi levada pro mar e Kimbei foi trabalhar.



Meses e meses se passaram e o armeiro não conseguiu de jeito nenhum produzir as espingardas, pois não conseguia montar o mecanismo que compunha os gatilhos. Ele se arrependeu muito por ter dado a sua única filha por um conhecimento inútil. Wakasa também estava muito triste por estar longe de casa e de seus pais. As garotas de sua época tinham o costume (cultivado até hoje por várias japonesas) de escrever poemas, para desabafar e sintetizar no papel seus sentimentos, desejos e temores. Triste com a situação, Wakasa escreveu um poema, e mostrou para o capitão, que se sentiu tocado e a levou de volta para casa.

Entre as lágrimas de alegria do reencontro de pai e filha, o capitão ensinou Kimbei a produzir os gatilhos, e no espaço de um ano, o armeiro produziu 10 espingardas.

Durante sua estadia no mar, Wakasa teve um filho com o capitão. Mas como queria ficar em seu país, decidiu que seu filho deveria voltar para o mar com seu pai. Com o coração partido pela distância, ela contava os dias e os meses até o retorno do seu filho. Ela passava seus dias em um precipício alto, com vista para o mar, esperançosa por ver o navio que traria seu filho de volta. Um dia, Wakasa viu ao longe uma vela branca com uma cruz vermelha. Sem conseguir conter sua alegria, começou a gritar e pular, até que escorregou e caiu do precipício. Morreu feliz, pelo menos. No local da queda foi criado o Jardim de Wakasa, primeiro monumento que retrata da união entre o povo Japonês e o Português.



As espingardas mudaram a história da Japão. Embora uma espingarda seja mais cara e mais difícil de produzir do que uma espada (não as Katanas dos grandes samurais, essas eram difíceis e caras de produzir), era mais fácil, rápido e brato treinar um atirador do que um arqueiro, ou um Samurai. Com isso, os exércitos foram engrossados com as massas camponesas. Com um alcance maior do que qualquer arco, lança ou espada, as guerras começaram a ser travadas à uma distância maior do que o habitual. Assim como existiam samurais especializados em usar espadas, foram criados os que eram especializados em usar as armas de fogo, chamados de Teppo-ka (o equvalente a "sniper", em japonês). Mas mesmo com as avançadas Teppo, o conservadorismo do uso das armas brancas tradicionais em combates não foi deixado de lado.

A arte do Teppo Jutsu não ensina simplismente a atirar, também ensina como lutar usando o rifle como se fosse um porrete, usar baionetas e até como desarmar um inimigo portando armas de fogo. O poder psicológico do clarão e barulho de um tiro também contam. Sem contar com o íncrível poder que uma arma de fogo tem contra uma espada. Uma divisão de uma dúzia de Teppo-kas podia derrubar uma tropa inteira de espadachins. Como diria o avô de um colega meu: "Depois que inventaram o Viagra e a pólvora, não existe homem mais homem que o outro".

Ainda hoje, é comemorado em Tanegashima o Teppo Matsuri (Festival das Armas), festival que trata exatamente desta crônica. A espingarda recebe um culto muito forte nesta terra. Existe uma "dança folclórica da espingarda", os folders turísticos de Tanegashima exibem o desenho de uma mulher semi-nua abraçada com uma espingarda e existe até um tempo Xintoísta em honra à espingarda. Também existem academias de luta na região que treinam o Teppo Jutsu à maneira tradicional, com as antigas espingardas de se carregar pela boca. Ou seja, a espingarda se encrustou na história do Japão.

Por isso, da próxima vez que um playboy brigador vai falar com você sobre qual é a mais letal arte marcial, fale com ele sobre a incrível e secular arte do Teppo Jutsu!

Fonte: Aqui.

8 comentários:

Galinha Caipira disse...

Lembro sobre algo assim em Samurai X! rsrs, mas o Kenshin conseguia evitar as balas! kkkkkkkkkkkk

Livrarias para brasileiros no Japao disse...

A introducao das armas de fogo no Japao e' algo que fascina tanto japoneses como estrangeiros. Ocorreu bem na epoca da guerras intensas que unificacou e consolidou o pais (cerca do ano de 1600).

E' um otimo exemplo do espirito japones de assimilar, adaptar e usar o que existe de melhor o mais rapido possivel - algo que permanece ate hoje, seculos depois.

Anônimo disse...

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Is this possible?

fukk disse...

Mimimi playboy brigador, você deve ser um nerd frango que não aguenta um tapa, aí só apelando pra armas de fogo...
Grande bosta, puxar um gatilho qualaquer viadinho puxa, se isso tivesse algum valor os campeonatos de tiro esportivo fariam mais sucesso que os de MMA.

Costela disse...

Prezado Fukk. Percebe-se que você é um CUZÃO DO CARALHO que está abrindo a boca para falar merda acerca da opinião dos outros. Em momento algum falou-se que nós usaríamos o Teppo-Jutsu em dado momento de nossas vidas. Outra coisa. Quem usa arma de fogo como superioridade armamentista, está no mesmo patamar de quem usa artes marciais. Os dois configuram o uso de recurso para sobrepujar o oponente.
"Grande bosta, puxar um gatilho qualaquer viadinho puxa" Façamos o seguinte. Vamos colocar você e um mestre de Teppo-Jutsu com espingardas na mão, e então veremos quem mata quem primeiro.

O ministério da saúde adverte:

Pense antes de falar merda. Esta atitude conserva os dentes.

Felix disse...

Esse post é velho mas foi bom ;P
Tava procurando justamente isso depois de assistir O Último Samurai e jogar Age of Empires3 e ver que as duas histórias não batem huahua

Vou ler o livro que você indicou em pdf tbm, vc fez excelente resumo, fiquei com vontade de ler

Boa sorte pra vc e pro brogui aí

Anônimo disse...

é um assunto muito interessante, mas o texto tem uns probleminhas... por exemplo: a arte marcial do tiro com espingarda de serpentina (teppo ou hinawa-ju) não se chama (nunca se chamou) teppo-jutsu, mas sim ho-jutsu.

de resto, o recurso a Armando M. Janeira como fonte foi um gesto de inteligência.

*** em *****

Saymon disse...

Bitch please... não existe arte em apertar um gatilho o teppo jutsu só é arte em questão da luta face a face usando o arcabus e baionetas, pois qndo falta munição o que importa é como é sua técnica de porrada é claro que sempre da pra trapacear usando terra ou outras coisas do ambiente, mas antes se defender tendo uma arte na bagagem do que sem ela.